SOLOS - Pará              

 

Formados por terrenos cristalinos e sedimentares que lhes deram origem, os solos paraenses apresentam- se com uma certa diversidade, sendo caracterizados especialmente, pela intensa  lixiviação(lavagem do solo água das chuvas) a que são submetidos. As derrubadas e queimadas que vêm ocorrendo no Estado, expõem o solo diretamente ao trabalho da erosão pluvial devido aos altos índices de chuvas que caracterizam a região. A ilusão do caboclo paraense de que as queimadas fertilizam o solo, o que inegavelmente ocorre na sua fase imediata, não leva em consideração que os nutrientes se perdem com as chuvas, deixando o solo empobrecido. Pelas características geomorfológicas e climática da região, os solos paraenses podem ser classificados, genericamente, em solos de várzeas e de terra firme. Os solos de várzeas, localizados nas margens do rios, são adubados e drenados naturalmente pelas enchentes periódicas. São ricos e humus(matéria orgânica) devido aos aluviões que se depositam nas suas margens. São originários, portanto, de terrenos sedimentares(terciários e quaternários), hidromorfos e geralmente argilo- arenosos. Podem ser aproveitados em culturas temporárias como arroz, junta e malva, mas não apresentam condições adequadas à mecanização das lavouras. Já os solos de terra firme, com predominância dos latossolos, amarelos ou vermelhos, são mais destinados a cultura permanentes ou de ciclos longos, como da pimenta- do- reino, cacau e dendê. Existem algumas manchas de terra roxa disseminadas mais para o Sul do Estado. Nas demais áreas, os solos podem ser corrigidos através da adubação, que suprirá a pobreza em minerais nutrientes e acidez. Esse solos são geralmente profundos, bem drenados e, como aparecem em áreas planas ou pouco acidentadas, oferecem condições adequadas à mecanização. Alguns dos principais tipos de solos existente no Pará têm nomes estranhos, comuns apenas aos estudiosos de pedologia. A seguir, relacionamos esses tipos de solo e suas características mais acentuadas. O grupo dos latossolos amarelos tem sua origem relacionada a sedimentos areno- argiloso dos períodos quaternário e terciário. Encontrado na faixa paralela aos rios Guamá, Tocantins e Amazonas. O latossolo vermelho- amarelo apresenta características semelhantes ao latossolo amarelo, inclusive quanto à origem, mas com teor mais elevado de Fe² O³ (óxido de ferro). Encontra- se no estremo Norte do Estado e ao longo do Rio Araguaia. A terra roxa estrutura caracteriza- se pela profundidade, firmeza e fertilidade natural para a agricultura. Resulta da alteração de rochas básicas e ultrabásicas. Encontrada às proximidades dos municípios de Alenquer e São Félix do Xingu. O solo  podzólico vermelho- amarelo eutrófico é encontrado em algumas áreas do Sul do Pará, em relevo com topografia variável, apresentando boa reserva de nutrientes. O podzólico vermelho- amarelo, semelhante podzólico vermelho- amarelo eutrófico, tem baixa fertilidade natural, ocorrendo em relevos planos e nos terrenos com ondulações. Na Ilha de Marajó é encontrada a variação podzólico vermelho- amarelo plíntico, que apresenta de média a grande profundidade e grande concentração de água. No plintossolo predominam as cores avermelhadas, que abaixa fertilidade natural e o excesso de água. Originado de sedimentos areno- argilosos do quaternário, é encontrado no Marajó. O podzol hidromórfico apresenta baixa fertilidade natural, textura arenosa e pouca permeabilidade. A origem está relacionada aos sedimentos areno- argilosos dos períodos quaternário e terciário. Encontrado em pequenas áreas do Nordeste do Pará, incluindo o Marajó. O solonchak é um solo com alta concentração de sais solúveis, responsáveis,  pela formação de crosta de saias cristalinos em sua superfície. É encontrado em parte do litoral paraense, sendo impróprio para o uso agrícola devido ao difícil manejo. As areias quartzosas apresentam baixa fertilidade natural e considerável teor de acidez. Retêm pouca umidade e são bastante lavadas pelas chuvas. Originadas de sedimentos do quaternário e terciário, são encontradas na serra do cachimbo, a Sudoeste do Pará. No Sul do Estado há ocorrência de solo litólico. Dependendo do material de origem, esse tipo apresenta características físicas e químicas diferentes. Apresenta textura arenosa, média ou argilosa, sendo facilmente atingido pela erosão devido à pouca profundidade. Não é indicado para a agricultura. Os lençóis freáticos influenciam diretamente o tipo gleissolo, originado de sedimentos do período holoceno. Subdivide-se em glei húmido e glei pouco húmido, conforme os efeitos da oscilação do lençol freático. Ocorre nas planícies fluviais, como a área de Belém e seu entorno. Parte do litoral paraense é dominada pelo solo indiscriminado de mangue. Não é indicado para a agropecuária, por apresentar excesso de água e acúmulo de sais solúveis, que prejudicam o crescimento de espécies vegetais. O vertissolo é um tipo de solo mineral de média a grande profundidade, que durante a época chuvosa tem a capacidade de se expandir e na época seca se contrai, provocando o aparecimento de fendas com espessuras a 1 cm. Apresenta boa reserva de nutrientes, favoráveis ao crescimento de vegetação. Entretanto, como se contrai durante a seca, as raízes das plantas podem rachar. Por ser pouco permeável, o excesso de água acumulada na superfície e a consistência pegajosa impossibilitam o uso de máquinas. Ocorrem em pequenas áreas do Pará. Com alto teor de ferro e alcalinidade, além de baixa fertilidade, o tipo petroplíntico não é indicado para agricultura, por não oferecer nutrientes e espaço necessário ao desenvolvimento de espécies vegetais. A concentração de ferro também limita o uso de máquinas para melhorar a qualidade do solo. É encontrado no Nordeste do Pará e às proximidades do Rio Amazonas.

 

SOLOS

 

A maior parte do solo é ruim na Amazônia, mas há manchas de terra rocha muito férteis e também áreas limitadas de areião imprestável. O dado decisivo é este: a maioria dos solos não se presta à agricultura.

SOLOS

 

Relevo

 

Macro-unidades do relevo brasileiro: planaltos, depressões e planícies

 

Na Amazônia estão presentes as seguintes macro-unidades:

 

1)      Planalto da Amazônia Oriental: ocorre circundado por depressões periféricas ou marginais. Apresenta cuestas com altitudes em torno de 400 metros.

2)      Planalto residual norte-amazônico: Unidades formadas desde o pré-Cambriano, a partir de sedimentos. Presença de serras e morros isolados e associados a intrusões graníticas. Estendem-se desde o Amapá até o Norte do Amazonas, com altitudes entre 600 e 1000 metros, podendo atingir 3.000 metros (Pico da Neblina). Serras associados a esta litologia: Tapiraperó, Parima, Tumucumaque e Navio.

3)      Planalto residual sul-amazônico: Estende-se do sul do Pará a Rondônia. Mescla áreas de morros do Pré-Cambriano com coberturas sedimentares do Pré-Cambiano e do Paleozóico Inferior, onde sobressaem as chapadas, caso da Chapada do Cachimbo. Há ainda relevos residuais associados a sedimentos, intrusões e dobramentos com metamorfismo – caso da Serra dos Carajás.

4)      Depressão marginal norte-amazônica: área entre as bordas da bacia amazônica, com presença de pequenos morros associados a intrusões graníticas. Com altitudes entre 200 e 300 metros, estende-se a leste até o litoral do Amapá, a oeste avança sobre os territórios da Colômbia e Venezuela, ficando no mesmo nível que o planalto da Amazônia ocidental.

5)      Depressão marginal sul-amazônica: limita-se a norte na borda sul da bacia amazônica, apresenta níveis altimétricos entre 100 e 400, sendo crescente em sentido N – S.

Planície do rio Amazonas: está associada aos depósitos do Quaternário (Holoceno). Apresenta trechos mais elevados, margeando o leito do rio e formando diques fluviais. Nos trechos mais baixos a água de inundação permanece por mais tempo e aparecem gramíneas. A ilha de Marajó é a porção mais ampla desta unidade.

SOLOS

 

A POBREZA DO SOLO COMO FATOR LIMITANTE

 

Meggers desencadeou uma tradição que aponta o ambiente como fator limitante para a presença de culturas complexas no trópico amido (1954). Essa autora tentou mostrar que os solos são pobres e ácidos, portanto incapazes de sustentarem populações maiores do que aquelas que podem explora-los pelo cultivo de corte e queima, tradicional entre sociedades amazônicas. O solo não pode sustentar esses tipos de agricultura por mais de dois ou três anos e a população tem que abandonar a região.

O processo de sucessão secundária permite, então, a renovação da área para permitir o cultivo novamente num futuro de 20 a 100 anos. O argumento é simples e toda uma geração nele encontrou uma base para generalizar sobre as populações da Amazônia.

As criticas a este ponto de vista não demoraram a aparecer, mas não foram tão consideradas na época. Carneiro (1957) tentou mostrar que entre os cuicurus do Alto Xingu era possível obter-se grandes safras de mandioca, capazes de sustentar populações de até 2.000 pessoas, sem a necessidade de deslocamentos constantes. Para Carneiro o fator limitante não seda o solo, mas as plantas invasoras do terreno, ou ervas daninhas, que tomavam maior o custo da limpeza das roças a cada ano, o que posteriormente levaria ao abandono do terreno. Como tentaremos mostrar no Capitulo 7, essa hipótese é apoiada na descoberta recente por agrônomos de que em terras roxas eutróficas de alta fertilidade o principal problema no manejo não é a fertilidade do solo, mas sim o controle das plantas, invasoras (Sanchez et al. 1982). Embora as análises do solo dos cuicurus não permitam uma classificação certa, podemos dizer que a região ocorre em uma das duas manchas maiores de terras roxas eutróficas na Amazônia.

A outra critica vem de Femdon (1959), que mostrou a falta de atenção às inter-relações de numerosos fatores em sistemas agrícolas no modelo de Meggers. Uma área não tem uma potencialidade estática, mas possui certas capacidades produtivas a cada nível tecnológico aplicado. Assim, uma área seca e improdutiva pode ser irrigada; uma área pobre em fertilidade pode ser corrigida pelo transporte de matéria orgânica de planícies fluviais, e uma área alagada pode ser drenada. Femdon chamou atenção para o caso das culturas complexas na Ásia, em áreas comparáveis aos trópicos amidos americanos, mas nas quais a história cultural mostra a utilização da laterita para construção de templos monumentais, aproveitando, assim, um dos materiais apontados pelos deterministas ambientais como responsável pelo baixo potencial agrícola do trópico úmido.

O estado presente dessa discussão sugere que seda melhor não pensar no solo como único fator limitante, valorizando a variabilidade dos solos da Amazônia (veja a discussão anterior neste capitulo), a capacidade diferencial entre populações no manejo do solo (veja discussões disto nos capítulos seguintes), e o uso do solo em função da densidade demográfica (veja Moran 1989) para uma discussão especializada dessa matéria).

Os solos da Amazônia estão entre os mais jovens e os mais velhos do mundo. Quase 75% da bacia amazônica é dominada pelos oxissolos e ultissolos, caracterizados pela sua acidez, pobreza química, excelente estrutura física, cor vermelha e amarela, e boa drenagem. Uns 14% estão representados por entissolos, inceptissolos e gléi hidromórficos, solos mal drenados e aluviõões, geralmente encontrados nas áreas de várzea, restingas e igapós. A fertilidade depende da fonte do aluvião, que pode ser ácido ou básico. Em 8% da bacia amazônica encontram-se solos de média e alta fertilidade, bem drenados, que incluem os alfissolos, venissolos e molissolos. Os podzols, que cobrem apenas 3%4o da região, subjazem às bacias drenadas por rios negros (veja tabela 5,4). Estatisticamente, portanto, a freqüência de solos ácidos e deficientes em nutrientes permanece válida, desde que se entenda que milhões de hectares de solos de boa fertilidade encontram-se dispersos no meio de solos pobres (Moran 1989).

 

SOLOS

 

A BAIXA PROTEÍNA ANIMAL COMO FATOR LIMITANTE

 

Nos últimos anos a hipótese de que na Amazônia a baixa biomassa animal na floresta explicava os padrões de dispersão na região tem sido o foco de numerosas pesquisas (Chagnon & Hames 1980 sintetizam os argumentos). A discussão iniciou-se com um artigo de Donald Laduap (1968) que, contrariando Meggers, sugeriu que não era a qualidade dos solos mas sim a disponibilidade da proteIr1a animal quê determinava a distribuição demográfica na Amazônia. Carneiro (1968) quase simultaneamente sugeriu o mesmo (1968). Um número crescente de especialistas começa a sugerir que foi a escassez da caça e da pesca (Denevan 1966) que limitou o desenvolvimento cultural de assentamentos humanos na tema firme.

Baseando-se nos dados quantitativos disponíveis, Gross (1975) sugeriu que o consumo de proteIr1a anual variava entre 15 e 63 gramas per capita por dia e que para manter este nível de úlsumo protéico, as populações mantiveram seus números abaixo de níveis demográficos que poderiam levar a crises protéicas ou à degradação ambiental. Outro artigo fundamental foi o de Ross (1978), no qual ele tentou explicar os tabus de cenas caças na Amazônia em termos de sua disponibilidade e de seu comportamento. Por que, pergunta ele, não permitir o consumo de animais como a anta, sé existe uma escassez de proteína animal? Ross respondeu que a anta (Tap&us terresbik) e os porcos-do-mato (Tqyassu pecad; T. tacaju) são caçados com pouca seqüência devido à sua baixa incidência e que isso leva os caçadores a se concentrarem em animais menores que têm taxas reprodutivas mais altas e são uma fonte mais estável de proteína animal do que os animais de maior porte (ibid. p. 8-12). Os dados quantitativos publicados desde aquela época sugerem que, na maioria dos casos, os caçadores na região dependem precisamente das antas e dos porcos-do-mato para manterem os altos níveis de consumo de proteína animal (Vickers 1984) e que tais tabus são casos particulares que devem ser explicados em  termos microecológicos e não ao nível da Amazônia em geral.

Logo depois, outros iniciaram uma critica sistemática ao tema, começando com Beckerman (1979), seguido logo depois por Chagnon e Hames (1979, 1980), Hames (1980), Vickers (1979), Hill and Hawkes (1983) e Yost and Kelley (1983). Em geral, estes. autores argumentam que os caçadores na Amazônia têm muito sucesso na caça e não sofrem de deficiências protéicas. Numa análise sintética da composição da caça entre oito populações indígenas e quatro mestiças, Vickers (1984) mostrou que os mamiferos são muito mais comum do que fora sugerido por Ross e que os porcos-do-mato são os principais componentes, com a anta em segundo lugar. Entre estes mamíferos terrestres, o Tayassu pecari contribui com três vezes mais carne do que T. tacaju (ibid.).

Vickers (1984) examinou cuidadosamente os dados desses doze estudos e descobriu que onde se sugeria que a caça era deficiente, as regiões estudadas localizavam-se na área da subandina montana, de altitudes superiores a 600m (cf. Johnson and Johnson 1975; Johnson and Behrens 1982; Denevan 1971). Assim, Vickers sugeriu que as diferenças em condições do habitat e o impacto diferencial das populações humanas sobre o ambiente (e.g. densidade demográfica, duração de ocupação, tecnologia da caça, degradação ambiental) influenciam na disponibilidade de biomassa animal.

Uma análise das 41 espécies mais caçadas indica algumas das dificuldades enfrentadas pelo caçador na floresta amazònica. Desse modo, 39% das espécies mais caçadas têm menos de  5 kg de peso, 54% têm comportamento solitário, 73% são noturnas, e 44°16 são arbóreas (Sponsel 1981). A única exceção a esta situação é o caitetu (Tayassu pecam), espécie que vive em grupos de 50 a 100, atinge peso de até 30kg e é terrestre, provavelmente explicando por que a espécie ocupa o primeiro lugar entre aquelas que são caçadas pelas -populações amazônicas (seja por número ou por peso) (Vickers 1984). Mas normalmente, o caçador não pode depender da aparição dos caitetus. As manadas desses animais aparecem e desaparecem rapidamente de um território, sendo portanto uma fonte de fartura num dia e deixando as populações desprovidas em outros. Assim, os caçadores têm que depender da observação da aparição das frutas consumidas pelos animais, da caça fortuita a caminho da roça, da caça nas mesmas roças para onde são atraídos animais menores como pacas, cutías, tatus e veados, e da manutenção de áreas de reserva que servem para manutenção da produtividade da caça. A média obtida entre os sionas-secóias do Equador é de 16,75kg por caçador por dia de caça, considerada como boa quando comparada com caçadores de outras áreas do mundo (Vickers 1988). Assim, os caçadores voltam-se para animais pequenas, quando não encontram presa de maior porte, evitando assim a depredação das espécies importantes para a caça.

Do ponto de vista ecológico, um dos elementos que têm faltado nos estudos de subsistência indígena refere-se a uma  visão mais holística que inclua os vários elementos que podem compor uma estratégia de subsistência. Entre os fatores relevantes estão as vantagens de produzir um excedente para favorecer alianças e como proteção em anos ruins, a relação entre exploração moderada e excessiva de recursos num território, questões da sazonalidade, o valor de outros nutrientes e o gosto de certas comidas (Vemer s,d.).

As estratégias visíveis hoje na Amazônia representam respostas ao despovoamento da Amazônia a partir de 1500, tanto como respostas às limitações do ambiente físico. A população depende da horticultura para quase 75% de suas calorias, basicamente da mandioca, o que cria a necessidade de procurar proteína  animal. Assim, é de se esperar que as exigências da horticultura tenham influído sobre o tempo disponível para as atividades menos eficientes, mas necessárias, de caça, coleta e pesca.

O enfoque na caça ocorreu simultaneamente com uma falta de atenção à pesca. Beckerman (1989) mostra que a pesca, e não a caça, é a principal fonte de proteína para a maioria das populações amazônicas - e sua captura é muito mais eficiente do que a caça nas áreas de terra firme. A tabela 5,5 sintetiza os dados disponíveis sobre caça e pesca. Existe grande variabilidade  no lucro das atividades pesqueiras, em função das diferenças de localização da população à beira dos rios, do tipo de tecnologia usada e do tipo de rio. Os lucros da caça flutuam muito mais do que dos da pesca, em função do tempo de ocupação do território, das técnicas usadas para caçar, da tecnologia, da sazonalidade e dos tipos de animais que predominam em um tipo de vegetação. É possível que em tempos pré-coloniais, em áreas de alta biomassa vegetal e animal, a eficiência da caça tenha sido maior do que a eficiência da horticultura (baseada numa tecnologia na qual o fator limitante seda a capacidade de desmatar com machado de pedra). Estima-se que o machado de aço aumentou a eficiência do corte em 300%, o que dá uma vantagem considerável para a horticultura. A eficiência da caça aumentou somente 3,3 vezes com a introdução das armas de fogo em uma comparação feita entre os iecuana e os ianomàmis (Hames 1979), e 1,22 vezes entre os uaoranis (Yost e Kelley 1983:222-3).

Ainda que faltem dados quantitativos adequados sobre as estratégias de subsistência de populações nativas da Amazônia, os novos conhecimentos sugerem que variáveis tais como tipo e condições dos habitats explorados devem ser incluídos em comparações referentes à disponibilidade de proteína animal (Wemer et al. 1979). Tudo parece indicar que em populações menores que 250 individuos, localizadas em territórios de pelo menos 1.000km2, como é comum na Amazônia desde o século XIX, os caçadores de terra firme têm sucesso na caça, concentrando-se nos mamíferos terrestres de maior peso (os quais compõem 91% da come nas comunidades estudadas), especialmente os porcos-do-mato e as antas. Em regiões com menor biomassa vegetal e menores populações de mamíferos de grande porte, as populações dependem em geral mais de outros grupos  de animais tais como aves, desenvolvem tabus proibindo a caça dos mamíferos de grande porte e dão maior atenção à pesca e à agricultura.

 

CONCLUSÕES

 

O exame dos enfoques ecológicos dos anos recentes resulta em uma visão mais critica do que foi feito até agora. A acumulação de dados quantitativos tem permitido uma critica das explicações simplistas do passado que tentaram correlacionar uma variável ecológica especifica (por ex. solo, protema) a estruturas sócio-politicas. A variabilidade do solo e da vegetação da qual dependem as espécies caçadas sugere que precisamos caracterizar as populações da Amazônia com mais detalhe do que simplesmente pela dicotomia tradicional de "populações de terra firme" e populações de várzea". Precisamos também integrar aos estudos de ecologia uma visão histórica dos processos de transformação que levaram às anuais configurações politico-econômicas e que continuam a influenciar no comportamento dos habitantes da região.

Nos capítulos seguintes tentaremos fazer exatamente isso. Mas a apresentação representa só um começo e depende da disponibilidade dos detalhes necessários para modelar as estratégias das populações. Em muitos dos casos, os dados não foram coletados ou publicados até agora e esperamos que uma nova geração de pesquisadores investigue a Amazônia com um esquema que lhes permita chegar a uma compreensão mais completa das relações entre o homem e os habitats amazônicos.

SOLOS

 

CARACTERÍSTICAS DO HABITAT

 

A vegetação mais característica deste habitar é denomiI1ada campina ou caatinga. Trata-se de uma floresta coriácea de 10 - 20m que cresce sobre areias quartozas hidromórficas (Takeuchi 1961; Klinge 1978). As áreas de caatinga ocupam regiões da Amazônia e das Guianas. Essa vegetação desenvolve-se em áreas com clima tropical úmido, onde não existe uma época seca e onde domiI1am solos podzols (JSDA=spodossols). A vegetação varia de alta caatinga a baixa caatinga ou “bana", que é especialmente pobre. Afigura 6,2 ilustra a inter-relação entre hidrologia, solos  e vegetação numa área do Alto Rio Negro. No Uaupés da Colômbia a caatinga não se constitui na vegetação dominante, ocorrendo em aproximadamente 20% dessa bacia (Dufour, comunicação pessoal 1989). As folhas da vegetação de caatinga são coriáceas e duras. cipós são incomuns, ao contrário das epifitas. Tudo indica um ambiente oligotrófico, ou pobre em nutrientes. A evidência dessa pobreza pode ser observada no comportamento de Cecropia ficifolia, uma das espécies de sucessão secundária comumente encontrada no rio Negro. As cecrópias crescem muito menos nas áreas de areia branca do que nos solos latos-sólicos de florestas de terra firme que ocorrem em áreas vizinhas.  Há uma tendência a existir espécies dominantes nessas áreas oligotróficas, em contraposição ao resto da Amazônia. Entre as espécies dominantes na região de San Carlos de rio Negro estão Micrandra spruceana e Eperua leucantha. Essas duas espécies compõem 50,3°% da biomassa e são altamente especializadas, aparentemente adaptadas à oligotrofia do ambiente (Klinge 1978:260). As 126 espécies restantes incluem geralmente só um individuo por hectare como é comum em outras regiões da floresta pluvial de terra firme da Amazônia.

As caatingas também existem em outras áreas do trópico úmido. Em Sarawak, uma ilha do Pacifico dentro do trópico úmido, são conhecidas como "Kerangas", terras pobres onde o cultivo do arroz não é possível (Jacobs 1988:188). Em outras áreas da Ásia são conhecidas como ''padangs". As áreas no trópico úmido com vegetação xeromórfica similares em fisionomia, são encontradas em Boméu, ilhas de Banka e Biliton, e em menor proporção em Sumatra e Malaca. llichards (1952) comparou padang da Malásia com a formação ''wallaba" das Guianas. Os solos associados a essas vegetações, de areias brancas altamente lixiviadas, são extremamente pobres, até quando comparados com o resto dos solos do trópico úmido. Interrupções na reciclagem de nutrientes da floresta virgem levam a uma rápida degradação ambiental e a vegetação demora muito a se restabelecer (jacobs 1988:189; UM 1983). A lenta recuperação das áreas desmatadas confirma a pobreza química desse ecossistema (Uhl et al. 1982b; Uhl 1983).

As florestas nas bacias de água preta têm uma menor biomassa vegetal acima do chão do que outras áreas do trópico úmido, mesmo nas áreas mais produtivas de terra firme. Jordan e Uhl (1978) mediram 390 toneladas por hectare, em comparação coma média de 450 toneladas das florestas pluviais em geral. A média de 132 toneladas de raízes é maior do que em qualquer outra vegetação terrestre, com 86% ocorrendo no horizonte A do solo e 70% composto por raízes muito finas (Klinge e Herrera  1978). O índice de área foliar (1.é, os metros quadrados de folha acima de um metro quadrado do piso na floresta) apresenta uma média de 5,2 em San Carlos de Rio Negro, em comparação com uma média geral de 8,0 nas florestas tropicais – provavelmente para reduzir os efeitos da época de seca. O volume de madeira é menor nessas florestas (0,5m3 por hectare) e as copas também são menores do que nas florestas menos limitadas em nutrientes (200m3 em contraste com 300m3) (Jordan 1982:395).

A vegetação de caatinga amazônica apresenta um gradiente em função das pressões ambientais que enfrenta. O gradiente (ver figura 6,2) de caatinga alta para bana alta e bana baixa reflete um grau de complexidade estrutural cada vez menor, uma menor altura das espécies arbóreas, uma crescente dominância da vegetação herbácea e uma menor biomassa acima do solo com um declínio de 28kg/m2 para l kg/m2, acompanhada de uma proporção maior de biomassa em raízes de 34% do total para 87°16 do total. A abundância de raízes e as características xeromórficas das folhas sugerem um sistema sob stress oligotrófico e hidromórfico. Essas condições desfavoráveis levam a uma redução progressiva no porte da vegetação e favorecem a dominância de plantas altamente especializadas (Klinge e Herrera 1978).

Vários autores descrevem a estratificação dessa região. A bana baixa tem uma altura de 3-7m com árvores de baixo porte  misturadas com arbustos e plantas herbáceas. A bana alta pode chegar a uma altura de 20m e aproxima-se das condições de

outras áreas de terra firme. É possível identificar a bana alta como um ecotono entre as áreas de bana e da caatinga amazônica (Klinge s.d.:20). A biomassa na caatinga é quase o dobro da biomassa nas áreas de bana alta (1.é, 28kg/m2 e 10-17kg/m2 respecfivamente) (ibid. p. 27). A proporção de biomassa nas raízes chega a 87% em bana, sendo bem menor na caatinga alta (34%4) e de 20°16 em outras matas do trópico úmido (ibid, p. 44: (Klinge e Herrera 1978).

Parâmetros edáficos e hidrológicos estão subjacentes a esses padrões da vegetação. Eles induzem conjuntamente a uma situação de stress que se manifesta na redução da altitude das arvores, nas mudanças, favorecendo folhas coriáceas e na maior proporção da biomassa nas raízes. É necessário examinar a pobreza em nutrientes e a situação hidrológica para chegar a uma compreensão real desse ecossistema.

A situação hidrológica caracteriza-se por duas estações opostas: alagamento em períodos de chuva abundante e estiagem em períodos em que a chuva é pouca. Medina et al. (1978) demonstrara que, mesmo com uma precipitação anual de 3..600mm, e chuvas de mau de 200mm cada mês, ocorrem estiagens sazonalmente em San Carlos de trio Negro. Quando a chuva mensal diminui para 200-300mm a estiagem é altamente provável, devido aos solos arenosos e a uma evaporação potencial entre 5,4 e 11,5mm por dia. As folhas coriáceas apresentam características anatómico-morfológicas observadas em plantas xeromórficas. As condições de excesso e flutuações da água subterrânea ocorrem em toda a área. Herrera (1979) foi o primeiro a mostrar que o lençol freático está sempre perto da superfície na caatinga amazônica, associando-se a uma camada de raízes finas (KliI1ge e Herrera 1978). Apenas uma chuva forte pode fazer o nível da água subir acima da superfície do solo e ali permanecer por vários dias consecutivos, já que se enche mau rapidamente do que se escoa. Na realidade, o ambiente é muito parecido com um brejo.

Os solos arenosos das bacias de água preta contém quase exclusivamente quartzo puro, sendo fortemente lixiviados e contendo um alto potencial de erosibilidade. Esses solos são conhecidos como spodossols, ou solos podzols, e como solos podzólicos hidromórficos. Apresentam uma camada superficial de pouca profundidade, alto teor de matéria orgânica não decomposta misturada com a areia branca e um horizonte B diagnóstico (1.é, spòdico) profundamente lixiviado, argiloso e impermeável à penetração da água. Sua cor varia entre branco e amarelo, com pH abaixo de 4,0.

As florestas desse habitat mantém-se sobre estes solos extremamente pobres e ácidos, graças à reciclagem de nutrientes. Esse processo tem que ser muito sofisticado, de forma que não se percam os poucos nutrientes existentes no sistema. Os nutrientes são lentamente acessíveis devido a características próprias do material: folhas coriáceas de lenta decomposição e baixo conteúdo de nitrogênio e fósforo (Cuevas e Medina 1986:466). Um dos mecanismos que facilita a reciclagem é uma camada de raízes superficiais no horizonte A. A decomposição da biomassa vegetal, -especialmente a da biomassa foliar, ocorre acima da camada de raízes, onde os nutrientes são absorvidos diretamente pela ação das micorrizas. Em uma experiência usando marcadores isotopicos, 99% do cicio e do potássio foram  absorvidos pela camada de raízes, que capturaram efetivamente todos os nutrientes (Stark and Jordan 1978). O nível de infecção dè micorrizas nas raízes da floresta é muito mais alto numa área de caatinga do que nas áreas de terra firme, na região de Manaus (St. John 1980). Todas as espécies da floresta estavam infectadas pelas micorrizas assim como as espécies de sucessão secundária, geralmente menos infectadas que a vegetação primária (St. John and Uhl, s.d.). As substâncias químicas liberadas pelas micorrizas no solo parecem atuar na solubilidade do cálcio e do fósforo, facilitando assim sua disponibilidade (Jordan s.d.).

Neste tipo de ecossistema amazônico, os nutrientes são conservados principalmente nos horizontes O e A. A camada de raízes é mais espessa onde os solos são mais pobres. Os micro-organismos na camada de raízes incorporam o nitrogênio disponível que parece ser o maior fator químico limitante nesse sistema. A camada de raízes com sua acidez e rico teor de taninos inibe o crescimento de outras bactérias que poderiam consumir o nitrogênio, diminuindo sua disponibilidade para a vegetação. Bactérias denitrificadoras são quase inexistentes nessas áreas. As algas da camada de raízes podem absorver nutrientes das gotas da chuva, ficando disponível novamente só com a morre das algas. A precipitação adiciona uma quantidade significativa de nutrientes ao sistema (Jordan et al, 1980; Herrera e Jordan 1981). A camada de raízes sobrevive por dois anos depois do cone e da queima. Se o terreno é abandonado antes da camada de raízes desaparecer totalmente, uma recuperação da área pode ocorrer sem muita dificuldade. Com períodos de cultivo de três anos ou mais, porém, a floresta pode levar até 100 anos para se recuperar (Uhl 1983).

As folhas coriàceas não só se adaptam aos períodos de estiagem, mas também sua durabilidade de mais de um ano significa que o potencial de lixiviação de nutrientes é menor e sua superfície dura sobe menor predação por parte dos insetos que outros tipos de folhas. A chuva parece lixiviar menos os nutrientes em folhas coriàceas.

Quanto mais pobre o solo, maior energia as plantas têm que utilizar para obter nutrientes, desenvolvendo mais raízes. Em termos de custos/benefícios, é mais econômico para uma planta produzir matéria tóxica com o objetivo de reduzir a precação por parte dos herbívoros do que produzir mais folhas. Assim, as plantas desse ecossistema produzem componentes secundários que são tóxicos ou impalatáveis para os herbívoros. Populações de herbívoros são muito baixas nessas áreas, em função da falta de biomassa vegetal não tóxica. Pesquisas na África (McKey et al. 1978), assim como na Venezuela, confirmam a ocorrência dessas matérias tóxicas bacteriostáticas e ingistàficas, como os alcalóides e polifenóis, em áreas oligotróficas. Esses químicos defensivos são de grande interesse na medicina contemporânea. Schultes (1979) descreveu 1.300 plantas que são utilizadas pelas populações indígenas do rio Negro como venenos, remédios e outros tipos de uso. Um conhecimento mais cuidadoso dessas áreas e uma valorização dos conhecimentos indígenas poderia levar a sistemas de utilização econômica altamente vantajosos sem destruição ambiental. De todas as áreas da Amazônia, as bacias de água preta são as que apresentam os mais altos potenciais para avanços na química e na farmacologia.

As chuvas contribuem com as únicas quantidades de nutrientes adicionais ao sistema (Jordan 1982b), o que tem prevenido a sua lenta degradação. Nos sistemas oligotróficos tropicais, a falta de insumos químicos provenientes do material geológico primário altamente lixiviado sugere que os insumos que evitam a degradação ambiental vêm principalmente da atmosfera.

            Estudos realizados na área do rio Negro confirmaram os resultados de Marques et al. (1977) e Salafi (1985) de que 48-50% da chuva na Amazônia derivam da evapotranspiração dentro da própria bacia (Jordan and Heuveldop 1981:91). Tal contribuição é muito maior do que aquela que ocorre em outras áreas da biosfera, onde somente 12% da precipitação derivam de transpiração local (Budyko 1974). A importância deste resultado em termos do impacto do desmatamento não pode ser esquecida, já que mudanças nas taxas de evapotranspiração poderiam levar a mudanças climáticas altamente negativas em áreas agrícolas, assim como na composição da vegetação dentro e fora da Amazônia (ver discussão do ciclo hidrológico no capitulo V)

 

MANEJO DOS SOLOS E DA AGRICULTURA

 

Antes da década dos 70, os solos da terra firme amazônica eram considerados onde os mais Iixiviados, ácidos e pobres do planeta. A cor vermelha ou amarela, indicativo de óxidos de ferro, era visto como evidência de que os solos da Amazônia se tomariam laterita, uma substância irreversivelmente pedregosa (MacNeil 1964), uma vez desmatada a floresta. Essa opinião, ainda demanda entre pessoas não especializadas, precisa ser corrigida. Antes da década dos 70, amostragem de solos na terra firme amazônica tinha-se restringido a áreas peno dos rios, onde a probabilidade é maior de se achar laterita (Sombroek 1966). A formação de laterita requer que os solos tenham a drenagem impedida e que o lençol freático flutue superficialmente por parte do ano a longo prazo. Estima-se que a laterita afeta aproximadamente 2-4% dos solos da bacia amazônica (Sanchez et al. 1982).

Os solos da Amazônia incluem os mais pobres e os mais ricos solos do planeta. Setenta e cinco por cento dos solos são pobres e ácidos; 14% são solos de aluviões mal drenados em áreas de várzea ou igapós; 7% são solos de média a alta fertilidade; e 3% são solos extremamente pobres, arenosos, conhecidos por podzols (ver tabela 7,1 que ilustra as mais recentes estimativas dos tipos de solos na Amazônia).

Os oxissolos (latossolos) são os solos de maior extensão na Amazônia, caracterizados por sua profundidade, excelente drenagem, cor vermelha ou amarela, excelente estrutura, mínima diferenciação nos horizontes, alta saturação de alumínio e pobreza química. Encontram-se com maior seqüência nas áreas mais antigas geologicamente, que datam do período paleozóico. São de rara seqüência no litoral aúàntico e nas áreas ao ocidente de Manaus.

Os ultissolos (solos podzòlicos) são difíceis de diferenciar dos oxissolos pela cor, acidez ou propriedades químicas. O único contraste entre eles é o aumento na percentagem de argila com maior profundidade dos ultissolos, e a ausência deste fenômeno nos oxissolos. Encontram-se em áreas de maior declive e a percentagem mais alta de argila dificulta seu manejo. Suas origens e dos materiais de aluviões do Terciário (445 a 1.200 milhões de anos A.P).

Esses solos incluem 75% dos solos da Amazônia. Caracterizam-se pelo baixo pH, alta saturação de alumínio, baixos níveis de fósforo, potássio, cálcio, magnésio, zinco e outros micro-nutrientes. Sua baixa capacidade de troca de càtions indica susceptibilidade a lixiviação. A acidez do solo explica-se na maioria dos casos pelas altas proporções de alumínio. A excelente drenagem dos solos pode sujeitar as plantas cultivadas à estiagem sazonal. Mais de 50% dos solos da Amazônia experimentam secas suficientes para murchar as plantas, quando ocorrem muitos dias consecutivos sem chuva (Sanchez 1981).

Os alfissolos e vertissolos são solos de alta fertilidade e ocupam aproximadamente 18 milhões de hectares na Amazônia. Sua ocorrência geralmente é na forma de manchas dentro de um mar de solos latossólicos e podzólicos. A cor e a estrutura dos alfissolos é comparável aos oxissolos e ultissolos. Para distingui-los desses, precisa-se de análise de solos no laboratório. Os alfissolos são conhecidos comumente no Brasil como terra roxa estruturada eutrófica, podzólica vermelho-escura ou podzólka vermelho-amarela eutrólica. os solos têm pH peno de neutralidade, altos teores de macro e micronutrientes, baixa saturação de alumínio e alta capacidade de troca de cátions. os vertissolos são solos argilosos com altos teores de nutrientes que criam rachaduras na época de seca e são pouco comuns na Amazônia brasileira.

Os solos podzols ocupam 10,5 milhões de hectares na Amazônia e são os piores solos da região. Encontram-se em toda a bacia, mas a maior área fica na bacia do rio Negro (RADAM 1972-78). São extremamente ácidos, com pH abaixo de 4,0 e extremamente pobres em nutrientes. A cor do horizonte A é branco ou cinzento com textura arenosa. A vegetação que cresce  acima desses solos é de menor altura e conhece-se pela denominação de caatinga amazônica ou campinarana.

Na Amazônia também ocorrem solos antropogênicos, conhecidos pela denominação TPI ou ''Terra preta do índio" (Sombroek1966; Smith 1980; Kem & Kampf, no prelo). os solos têm claros vestígios de ocupação humana, com artefatos de cerâmica, restos de carvão e material litico (Eden et al. 1984). Ocorrem associados a uma variedade de solos de terra firme em posições topográficas que geralmente permitem uma boa visibilidade da região circunvizinha. os solos adjacentes a mi possuem um grau de desenvolvimento similar mas não mostram sinais de modificação pelo homem (sombroek 1966). Considera-se que as terras pretas do índio são o resultado de ocupação prolongada por populações de terra firme. ATPI resulta de acumulação de dejetos domésticos em áreas de assentamentos e só, posteriormente, são

vistos como solos favoráveis para o cultivo (Eden et aI. 1984). Em alguns casos, sua presença é usada como indicador de área ótima para novos assentamentos e não para o cultivo (Balée, comunicação pessoal, 1989). o fósforo, em particular, é utilizado como indicador da presença de sítios arqueológicos e presença humana prolongada (Eidt 1977). TPI tem um horizonte A de cor que varia de preto a ciJ1zento muito escuro, devido à acumulação de material orgânico. A terra preta do índio mostra teores significativamente mais elevados de cálcio, magnésio, fósforo, potássio, pH e micronutrientes do que áreas adjacentes (Kern e Kamp( no prelo).

Utilizados também pelas populações da tema firme são solos de aluviões encontrados em várzeas, igapòs e açaiçais. Cambissolos, gleissolos, regossolos e solos aluviais e orgânicos estão entre os tipos de solos associados com deposição aluvial, geralmente de boa fertilidade, mas de condições estruturais variáveis.

As populações da tema firme praticam uma agricultura produtiva e eficiente em muitos dos casos estudados. Devemos lembrar que as populações da tema firme foram afetadas pela missionização, pelo Diretório pombalino, pela era da borracha e pelas mais recentes atividades desenvolvimentistas. O que se observa hoje é um reflexo imperfeito dos sistemas que devem ter existido na época pré-colonial.

A freqüência de solos ácidos e inférteis em que a maioria das populações das florestas de tema firme sejam mandioqueiros. A mandioca está pré-adaptada a tais limitações do solo do trópico úmido. A planta difundiu-se pelo resto do trópico úmido depois de 1500, porque oferecia uma resposta a um problema universal desse bioma. A alta de proteína da mandioca, por sua vez, criava uma dependência em fontes de proteína animal. O resultado depois das deslocações criadas pelos europeus foi uma mobilidade social que facilitava a obtenção de proteína animal em áreas de florestas relativamente inexploradas. A agricultura baseada na mandioca podia ser transferida a qualquer tipo de solo encontrado na Amazônia. Assim, resolviam-se dois problemas enfrentados pelas populações indígenas: como reduzir a possibilidade de serem escravizadas pelos colonos portugueses e como manter um sistema de subsistência relativamente produtivo (Moran 1989).

As conseqüências de tal mobilidade espacial facilitaram o ajuste das populações amazônicas a uma situação difícil. Em alguns casos, as populações puderam ficar relativamente isoladas em áreas de solos relativamente férteis. Nesses casos, os sistemas de subsistência enfatizaram um profundo conhecimento dos solos e deu-se um papel maior ao milho na agricultura. Os conhecimentos etnoecològicos de algumas dessas populações indicam a capacidade dessas populações de adaptar-se a uma situação na qual a maioria dos solos é ácida e pobre. Como já foi observado, os assurinis e arauetés localizam-se em áreas de terra preta do índio. Hecht e Posey (1989) mostraram a precisão dos conhecimentos dos caiapós em escolher e manejar os solos no seu território. Os caboclos da região, que têm geralmente uma adaptação mais generalizada -ao ambiente amazônico do que o índio, possuem também a capacidade de escolher solos ótimos. Na transamazônica, os caboclos da região perto de Altamira, usando critérios de vegetação, puderam identificar solos com pH acima de 6,O, quase a ausência de saturação de alumínio e relativamente altos teores de macronutrientes (ver figura 4,l0). Esses solos excelentes existiram em menos de 8% da região e indicam a exatidão dos critérios etnoecológicos aplicados à agricultura amazônica por populações locais. Por outro lado, os critérios usados por pessoas foràneas identificaram os solos mais típicos da região e apresentaram problemas aos colonos (Moran 1977).

A agricultura na terra firme amazônica se caracteriza pela prática de corte-e-queima, na qual pequenas áreas de menos de dois hectares são desmatadas, queimadas e logo depois plantadas. O corte-e-queima tradicional entre as populações indígenas da Amazônia de terra firme mantém um balanço quase homeostático nos estoques de nitrogênio no sistema. Em uma área estudada o estoque total de nitrogênio na floresta foi de 5.354kg/hectare e teve pequeno impacto sobre os estoques de nitrogênio. A queima consumiu as folhas secas da vegetação e volatilizou o nitrogênio nelas (143kg/ha). Isso seda uma perda de 3% no estoque de nitrogênio. A maioria dos troncos não foi consumida pela queima, mas gradualmente o nitrogênio foi liberado pelos processos de decomposição. Do estoque original de nitrogênio 392kg/hectare perdeu-se na colheita da safra, pela denitrificação e pela lixiviação (Jordan et al. s.d.). As baixíssimas perdas pela denitrificação na área estudada poderia ter que ver com o maior conteúdo de taninas na floresta estudada do que em outras áreas de tona firme. As perdas ao sistema foram quase completamente repostos pela precipitação e a fixação de nitrogênio pelas numerosas plantas leguminosas do ambiente. As perdas do estoque total de nitrogênio foram de aproximadamente 5% por ano - uma terça parte disto saiu da safra, outro terço pela lixiviação e outro terço do excesso de denitrificação sobre as

quantidades fixadas pelas leguminosas. O nitrogênio no solo ficou estável nos três anos em que a área foi cultivada no estudo, devido à contribuição da decomposição dos troncos e outros componentes que não queimaram completamente. Depois de três anos de cultivo, o estoque de nitrogênio é de 4.492kg/ha.

O efeito da queima da floresta merece atenção. Em uma área estudada na Venezuela, a temperatura do solo na superficie  variou entre 67 e 310°C (média de 140°C), e entre 48 e 199°C a um centímetro abaixo da superfície (média de 8O°C). A queima efetivamente elimina o brotamento das plantas que estavam na floresta antes da queima Jflfl s.d.) - somente um broto dos 6,4 brotos/m2 na floresta sobreviveram à queima. A queima também  atrasa a volta da floresta: das 752 sementes/m2 na floresta antes da queima, somente 157 sementes sobreviveram à queima em condições para germinar (ibid.). Quanto 'finais quente" for a queima e mais completa, menor será o vigor da sucessão secundária, e melhores condições para o crescimento terão as plantas cultivadas. Erros na queima são pagos com uma concorrência muito difícil com as plantas invasoras, melhor adaptadas ao meio do que as plantas domesticadas. Para poder ter alguma safra, é necessário limpar a roça várias vezes. Essa prática denominada de rivara, notada entre populações da Amazônia, é outra torna de investimento requisitado em casos de uma queima falida – na qual a mata cortada é juntada, cortada em menores pedaços, molhada com um combustível como o querosene, e requeimada. O investimento da coivara é tão alto que Índios e caboclos geralmente preferem cultivar a roça de vizinhos em regime de parceria a investir sua lavoura em um objetivo de duvidoso resultado final, devido ao inevitável vigor da sucessão secundária, na área plantada. Na área estudada por Uhl (s.d.), depois de  dois anos de cultivo, o estoque de sementes germináveis foi de 1.000/Km2 - maior ainda do que na floresta original e dominada espécies de gramíneas altamente agressivas (90% das sementes).

A agricultura de corte-e-queima em áreas de floresta de tema firme é dominada pelo cultivo da mandioca (Manihot esculenta). Quantidades bem menores de abacaxi, caju, batata-doce, banana, amendoim, cara, úlhame, algodão, fumo, pimenta, tomate e frutas completam as roças. A mandioca produz enormes quantidades de calorias por caloria investida na sua produção (cerca de 15 calorias por cada caloria despendida na sua produção), e por unidade de tema (7-12 toneladas/ha) na tema firme. A eficiência refletida nestes números resulta do pequeno tamanho das plantações feitas por agricultor (c. um hectare), o que lhes permite um cuidadoso corte da floresta, seguido por uma efetiva queima que elimina os concorrentes dos cultivos (pragas e sementes de plantas invasoras), e efetiva a fertilização da roça pelas cinzas. com o aumento do tamanho das roças, geralmente ocorre uma queda na eficiência destes processos e diminui o retomo econômico (1. é, a produtividade).

O papel dominante da mandioca na agricultura tradicional da Amazônia resulta da adaptação das populações aos solos dominantes da região. A mandioca, como foi evidenciado no capitulo anterior, evoluiu na região e é uma das poucas plantas capazes de produzir abundância de calorias em solos pobres e ácidos. Tentativas de mudar o tipo de cultivo plantado na maior parte da Amazônia obrigam-se a pagar um alto custo de insumos agrícolas requisitados por cultivos mais exigentes e a baixa capacidade de troca de cátions, que indica alto potencial de lixiviação.

Galvão (1963), na sua discussão de sistemas de horticultura indígena, apresentou um mapa onde identificava a presença de duas manchas onde moravam populações que cultivavam o milho, em vez da mandioca, preferencialmente. Entre várias das populações de Rondônia, como os suruis e alguns dos nambiquaras, e em áreas do baixo Kngu e Tocantins, pratica-se uma agricultura adaptada aos solos menos ácidos e mais férteis da Amazônia.

As roças dos suruis, por exemplo, são de aproximadamente um hectare e de preferência milho. Três variedades são plantadas: uma para cozinhar de diversas maneiras e duas para fazer pipoca. Batata-doce, inhame e outros tubérculos são consorciados com o milho, criando uma excelente cobertura do solo. O amendoim também é plantado, consorciado com mandioca doce nas margens das roças. Perto da floresta plantam-se também culturas não comestíveis como o algodão e tabaco.

As mulheres vão às roças cedo para voltarem já pelas dez horas com uns 20kg de colheita a ser preparada para o consumo. O calendário agrícola (vide figura 4,5) dos suruis começa na época de junho a agasta com o corte e queima das novas roças. De agosto a outubro a área é plantada de milho de acordo com o começo das primeiras chuvas. Já para dezembro, o milho verde começa a estar pronto e associa-se a várias festas, nas quais se preparam "beijus" de milho e bebidas fermentadas de milho. De março até junho, o milho seco é consumido. A mandioca doce é usada o ano todo de acordo com as necessidades do grupo, mas quase não se consome na época do milho verde. Na época de seca dá-se preferência aos tubérculos e ao amendoim (Coimbra Jr. 1989:63-69).

 

SOLOS - Literaturas

 

Amazônia seus Solos e Outros Recursos Naturais (1987)                

Editora Agronômica Ceres Ltda.

Rua: Martin Fco. 414   1226               

São Paulo - S.P                      

Autores: Lucio Salgado Vieira e Paulo Cezar Tadeu C. dos Santos