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Matinta
Perera
Ao ouvir durante a
noite nas imediações da casa um estridulante assobio, o morador
responde:
- Matinta, deixa a gente descansar e amanhã podes passar aqui para pegar
tabaco.
No dia seguinte uma velha aparece na residência onde a promessa foi
feita, a fim de apanhar o fumo. A cena descrita podia acontecer nos subúrbios
de Belém, há alguns anos, ou ainda hoje, no interior do Pará e de toda
a Amazônia.
Matinta Pereira, Matinta Perera, Mati-Taperê, Mat-taperê, Matim-Taperê,
Titinta-Pereira são algumas formas de grafar este mito que se apresenta
principalmente como sendo uma velha acompanhada de um pássaro. O pássaro
emite um assobio agudo, à noite, que perturba o sono das pessoas e
assusta as crianças, ocasião em que se promete tabaco ou fumo (aparece
como promessa principal) mas que também pode ser alimento. A velha, uma
pessoa idosa do lugar, carregaria a sina de "virar" Matinta
Perera, ou seja, à noite transformar-se em ser indescritível, a meter
medo e assombrar as pessoas. O mito da Matinta Perera chegou a ser
confundido com o do Curupira, do Caapora e do Saci. A Matinta Perera pode
ser de dois tipos: com asa e sem asa. A que tem asa pode transformar-se em
pássaro e voar nas cercanias do lugar onde mora. A que não tem, anda
sempre com um pássaro, considerado agourento, e identificado como sendo
"rasga-mortalha". Dizem que a Matinta, quando está para morrer,
pergunta: Quem quer? Quem quer?
E se alguém mais afoito, principalmente mulher, disser "eu
quero", pensando em se tratar de alguma herança de dinheiro ou jóias,
recebe na verdade a sina de "virar" Matinta Perera. Embora a
grande maioria de registros informe que a Matinta Perera é mulher, existe
pelo menos uma história passada em Inhangapi em que a Matinta Perera era
um homem, por sinal um negão forte e musculoso.
Há fórmulas mágicas que permitem "prender" a Matinta Perera.
Um deles exige uma tesoura virgem, uma chave e um terço. Cerca de meia
noite deve-se abrir a tesoura, enterrar na área, colocar no meio a chave
e por cima o terço, após o que rezam-se orações especiais. A Matinta
Perera ficará presa ao local, não conseguindo afastar-se...
No livro "Visagens e Assombrações de Belém" o escritor narrou
a história "A Matinta Perera do Acampamento", ocorrida na década
de sessenta, na qual uma Matinta Perera foi presa pela fórmula e levada
pelos habitantes ao Posto Policial do bairro da Pedreira, onde foi feita a
acusação de que a mulher "virava" Matinta Perera, ante os
policiais incrédulos. Mas naquela época - como até hoje - não se
configurava como crime previsto em lei "virar" Matinta Perera, e
a mulher ganhou a liberdade, voltando como vingança, a azucrinar a paciência
dos moradores do Acampamento com seus estridulantes assobios
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