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A
Grande Mãe
Conquistados
e colonizados que fomos por um país - Portugal - onde a religião vigente
era (e é) a Católica Apostólica Romana, desde a mais tenra idade
ensinaram-nos a amar, a temer e a venerar um Pai, Deus-Pai, Deus-Padre
Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra, o Inominado, o ""Eu
Sou O Que Sou"" em suma, um ser masculino.
Contudo, nas religiões primitivas, a grande deidade é feminina: a Deusa
Terra, a Grande Mãe, a Senhora do Tempo e, por conseguinte, do Destino,
aquela que governa toda a temporalidade concernente às etapas do
crescimento: começo-meio-fim; nascimento-vida-morte;
presente-passado-futuro, através de suas variadas manifestações.
A Grande Mãe é sempre uma virgem, o princípio criador que independe de
um homem para gerar outra criatura. Em geral, a mãe dos heróis e dos
semi-deuses é fecundada através de seres numinosos que podem ser animais
- a serpente, o cisne, o touro, as aves em geral e, entre nós, num
conceito mais popular, o famoso boto - ou pela ingestão de frutos, tanto
quanto pelo sumo destes, pelo vento, pela lua, pelos espíritos dos
antepassados e, enfim, pelos deuses. Na realidade, os povos ancestrais
desconheciam a relação existente entre o nascimento de crianças e a
atividade sexual em si. Respeitavam o período menstrual e assombravam-se
com a gravidez das mulheres. Para eles, isto constituía um mistério, um
tabu.
No Brasil e, particularmente, na Amazônia, muita criança tem por pai o
Boto, a Cobra Grande e, em tempos imemoriais, o Sol. O Boto, com certeza,
é "pai" de prole numerosíssima. A cunhã, a cabocla,
"inesperadamente" o ventre começa a entumecer, a inchar, quem
foi? "Foi boto, sinhá; foi boto, sinhô!" como bem informa a
canção do mestre e maestro Waldemar Henrique, de saudosa memória,
acrescentando... "quem tem filha moça, é bom vigiar..." Com as
nossas tribos não poderia ser diferente.
Assim, a mulher, a Grande Mãe, a CY é vivenciada, sobretudo e
principalmente, como a real fonte de origem de tudo quanto existir no
Universo, o Universo em si.
O indígena acredita que tudo, no mundo animal, vegetal e mineral tem a
sua mãe, a que protege e guia, perenemente. E esta mãe tudo gerou
sozinha, sem precisar de elemento masculino. Destarte, Amanacy (a mãe da
chuva); Iacy (a lua, nossa mãe, a primordial), Aracy (a mãe do dia),
Ceucy (a mãe do herói-civilizador), Coaracy (que, embora sendo o Sol, é
a mãe de todos os viventes) e tantas outras mais: a mãe do quente, a mãe
do frio; a mãe do corpo, a mãe da coceira; a mãe do mangue, a mãe da
praia; a mãe das canções, a mãe do silêncio, etc.
Veramente, os indígenas conhecem a mãe de tudo e de todos e sabem-lhe os
nomes. O pai, contudo, passa em brancas nuvens. A modo, um detalhe sem
nenhuma utilidade. Mór das vezes e, abrangentemente, na natureza, é
sacrificado sem dó nem piedade: o caso do zangão que, após fecundar a
abelha-rainha, é trucidado pelas "guerreiras"; os machos da
aranha caranguejeira, do "Louva-a-Deus", da Caba-tatu são
mortos pelas respectivas fêmeas, não esquecendo que, entre os quadrúpedes
e aves, fêmea parida ou "choca" quer mais é distância do
companheiro. Este serve para proteger e manter o lar. Um mero guarda de
segurança. Há exceções, é claro, mas, raras. O único animal da
natureza que mantém um relacionamento sexual assíduo com a sua fêmea é
o homem.
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