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Cobra Grande

Já no primeiro livro da Bíblia - o Gênesis - encontramos a história acima sintetizada e verificamos que a cobra acompanha o ser humano desde que surgiu na Terra. E nos mais diversos povos encontramos crenças, lendas, mitos, gravuras, rituais envolvendo as mais diversas espécies de ofídios.

"Viviam o primeiro homem - Adão - e a primeira mulher - Eva - em total estado de pureza no Paraíso e eis que surge a serpente e põe tudo a perder, tentando a mulher a comer do fruto proibido. E depois de Eva, é Adão que come, e assim são expulsos do Paraíso, sendo obrigados por Deus a comer o pão com o suor do rosto. A serpente foi então considerada maldita por Deus entre todos os animais". 


Em nossa região não poderia ser diferente. E aqui encontramos um dos mais fortes mitos envolvendo justamente a figura da cobra, de uma enorme e extraordinária cobra, por isso mesmo chamada de Cobra Grande.

Na verdade, há várias lendas sobre cobras: além da Cobra Grande propriamente dita (boiaçu, boiçu, boiguaçu, boioçu, boiuçu, palavras de origem tupi, a significar "cobra grande", que outra não é senão a sucuri, ou “anaconda” réptil do qual, no arquipélago de Marajó, existem espécimens de mais de 10 metros de comprimento), há ainda a Boiúna, a Boitatá e outras menos cotadas.

A Cobra Grande apresenta-se como enorme réptil que é capaz de virar, ou seja, fazer naufragar até mesmo embarcações de considerável porte, comendo ou levando para o fundo dos rios os passageiros.

Temida pelos ribeirinhos, sobretudo os dos grandes rios regionais, a Cobra Grande apresenta uma grande variação quanto a sua origem: ora é um ser representativo do mal, ora é um ser encantado e que carrega a forma de um ofídio como sina, até haver quem o desencante (neste sentido, é conhecida a estória da Cobra Norato, parida de uma mulher engravidada pela Cobra Grande, e que, ao ser desencantada, por um soldado da Polícia Militar, acabou sentando praça...), ora ainda pode transformar-se em imenso veleiro, que aparece todo luminoso, sempre à noite, e que, ao aproximar-se dos trapiches ou de outras embarcações, desaparece misteriosamente... Quase todo ribeirinho já viu ou tem um parente ou amigo que já se defrontou com a Cobra Grande em forma de navio...

A Boiúna (do tupi, "cobra negra") é também uma enorme cobra, de cor preta, que possui os mesmos sortilégios da Cobra Grande. Muitas vezes confunde-se a Boiúna, que, repetimos, significa "cobra negra ou preta" com a Cobra Grande. E diz-que tem dezenas de metros, os olhos são dois grandes faróis - e não falta quem diga que os olhos da Boiúna são na verdade os candeeiros colocados na frente da casa dos ribeirinhos, justamente para ajudar a navegação... mas Boiúna e Cobra Grande acabam confundindo-se e tornando-se uma só...!

Já a Boitatá é diferente. Em tupi, "cobra de fogo", é uma cobra luminosa que, às vezes, assume a forma humana, porém mantendo sempre a luminosidade, e outras vezes confundindo-se com o fogo fátuo, gases emanados dos cemitérios ou de regiões que tenham matéria orgânica em decomposição. Embora cause medo ou pavor às pessoas que a veêm, não chega a assombrar ninguém, ou seja, não deixa aqueles que a encontram em situação de precisar de "pajés" ou "pais-de-santo" para livrá-los de algum assombramento...

Em várias cidades, vilas e povoados amazônicos, existe a crença de que as mesmas estão situadas sobre a morada de uma... Cobra Grande! E Belém (atualmente) ou Santa Maria de Belém do Grão Pará, ou Nossa Senhora de Belém do Grão Pará, ou Feliz Luzitania, ou Feliz Espaniola (diversas denominações sobre as quais discutem historiadores para saber qual a verdadeira denominação que teve inicialmente a capital do hoje Estado do Pará) não foge a regra...

Acredita-se e que Belém foi fundada sobre a casa de enorme Cobra Grande... E daí corre a crença que, se a Cobra Grande se mexe, Belém estremece! Se a Cobra Grande resolver sair de seu lugar, Belém irá afundar! E com Belém, todos os seus habitantes...!

Acontece que... Estudo mais profundo do assunto poderia dizer se tal crença não nasceu dos primeiros missionários, que ao chegar em Belém, e, ao ouvir falar de Cobra Grande, a tenham resolvido esmagar, colocando-lhe a cabeça justamente sob os pés de Nossa Senhora, a Virgem Maria. Sim, porque segundo a crença - ou a lenda? - a Cobra Grande que está sob Belém tem sua cabeça sob o altar da Catedral da Sé e a cauda sob o altar da Basílica de Nazaré. Aliás, a crença fala em mais duas outras direções para a cauda: uma, indica a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no bairro da Cidade Velha; a outra, na Igreja de Santo Antônio. Sob o ponto de vista da evolução, do crescimento da cidade de Belém, a versão da causa sob a Igreja do Carmo é a mais antiga. Com a evolução da cidade, sua cauda mudou para ficar em baixo da Igreja de Santo Antônio. E, finalmente, que é a maior corrente, mudar novamente e se ampliar até a Basílica de Nazaré... Afinal, os missionários, aqui, como em outras plagas, tiveram que adaptar a religião cristã à cultura local, a fim de poderem conquistar novos crentes... E, quem sabe, se com isto, não tenham personificado a "boiaçu" dos indígenas, no símbolos do mal, no demônio, e a tenham resolvido esmagar, colocando-lhe a cabeça justamente sob o altar da Catedral da Sé onde fica a imagem de Santa Maria de Belém. Por sinal muito parecido à Virgem esmagando a serpente, que era a encarnação do demônio.

Por outro lado... a cabeça da cobra sob o altar da Catedral da Sé e a cauda em Nazaré, lembra também o famoso Círio de Nazaré que se inicia na Catedral e termina na Basílica de Nazaré...

De qualquer forma, existem, até hoje, os que crêem na Cobra Grande sob Belém. Tanto que, durante o tremor de terra ocorrido em Belém na madrugada de 12 de janeiro de 1970, muitas pessoas disseram que era a Cobra Grande que estava se mexendo... E a lenda diz que, no dia em que a cobra sair do seu repouso, Belém será tragada pelas águas da Baía de Guajará...

Crentes ou não, católicos ou não, lá vai a cobra grande humana... É o Círio de Nazaré... A grande serpente humana, a ondular-se, segue da Catedral da Sé para a Basílica de Nazaré...

E alí, a grande cobra - não uma lenda, mas a realidade formada por mais de um milhão de pessoas - que volteou durante quilômetros, abaixa-se, curva-se, põe-se aos pés da Virgem... da Virgem de Nazaré, Padroeira dos Paraenses...!